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Parto

E se passar da hora????

E se passar da hora????

Recebo muitos, muitos emails sobre esse assunto.
E se passar da hora? O bebê vai fazer cocô na barriga?
Eu não pude ter parto normal porque passou da hora….
Passou da hora e eu não dilatei…
Eu não tinha dilatação nenhuma, então para não passar da hora, o doutor operou.
E assim vai…
Então, resolvi escrever no blog, porque pode ajudar outras mulheres.

Primeiro. O que é passar da hora?

Embora não pareça, isso é muito subjetivo.
Passar da hora para alguns obstetras é passar de 37 semanas. Sim, é triste mas é verdade. Recentemente saiu uma matéria na Folha onde há obstetras que acham as mais absurdas justificativas para se fazer uma cesárea com 35 semanas.
Mas vamos dizer que não seja esse o caso. Que seu obstetra tenha tido a paciência (e a decência) de esperar sua gestação chegar até pelo menos 40 semanas.
Então quer dizer, que com 40 semanas e um dia, você e seu bebê estarão correndo um risco tremendo se ele continuar dentro do seu útero?

Ohhh natureza imperfeita essa não?
Como assim, mantém um frágil e inocente bebê preso na escuridão do misterioso útero materno?
Deus é injusto! Como podem mulheres terem seus filhos prematuros, enquanto você está aí, com mais de 40 semanas e seu filho não deu nem sinal de que vai nascer?
Ohhhh mulheres ansiosas! E atire a primeira pedra quem não ficou ansiosa no final da gestação!!
Sim, eu sei. Tive 3 gestações. É dificil carregar o barrigão, dói as costas, os pés incham, não há mais posição para dormir. O cansaço impera, e a vontade de carregar o bebezinho é soberana.
Então praque esperar? O doutor já disse que o bebê está pronto!
E lá se vai mais uma mulher para uma cesárea desnecessária, crente de que seu corpo tem algum “defeito de fábrica” e que portanto não iria mesmo conseguir parir. Afinal, passou da hora.

Gravidez prolongada é na verdade, aquela que passa de 42 semanas. Casos raríssimos, especialmente no nosso país onde a maioria das cesareanas são agendadas com no máximo 39 semanas de gestação.
Além disso, há muitos e muitos erros de cálculo. Eu por exemplo. Minha ultima gestação, pelas contas da ultima menstruação e pelo primeiro ultrassom, minha filha nasceu de 41 semanas e 1 dia. Pela avaliação da pediatra, nasceu  com 39 semanas e 4 dias. Ou seja, quase 2 semanas de diferença. E isso quer dizer que se eu tivesse feito uma cesarea com 38 semanas (porque afinal de contas ela já estava pronta e era um bebê grande) ela teria nascido com 36 semanas e provavelmente precisaria de uma estada na UTI neonatal por um desconforto respiratório, ou pela síndrome do pulmão úmido.
Como escreveu perfeitamente a Dra Melania Amorim em sua coluna no Guia do Bebê, “Por outro lado, mesmo gestações realmente prolongadas, datadas corretamente, com idade gestacional confirmada por ultrassonografia precoce, podem ser fisiologicamente prolongadas, porque aquele bebê, especificamente, ainda não está maduro, pronto para nascer, e portanto não se ativa a complexa cascata de eventos hormonais e bioquímicos que leva à deflagração do trabalho de parto. Esses bebês também não se beneficiam de uma política de antecipação do parto, quer por indução quer por cesariana, como ocorre aqui no Brasil, onde infelizmente “antecipar o parto” virou sinônimo de cesariana eletiva.”
Então quem somos nós, ou quem são vocês Obstetras donos da razão e semi-deuses para determinar a melhor hora para o bebê deixar o útero materno?
Dra Melania ainda complementa: “A mais recente revisão sistemática da Biblioteca Cochrane incluiu 19 ensaios clínicos randomizados (ECR) e 7984 mulheres, randomizadas para indução do parto a partir de 41 semanas ou para aguardar o trabalho de parto espontâneo. Embora tenha sido observado menor risco de morte perinatal e de aspiração de mecônio no grupo submetido à indução do parto, o risco absoluto de morte perinatal foi extremamente baixo, 0,03% vs 0,3%, respectivamente. A conclusão dos revisores é que as gestantes sejam informadas sobre risco relativo (RR=0,30, ou seja, uma redução de 70% quando se induz o parto) e risco absoluto, para que possam participar ativamente do processo de tomada de decisão. Essa discussão deve envolver prós e contras de uma conduta ativa (indução do parto) ou expectante, para que a escolha seja livre, informada e consciente.”
 
Mas no nosso país não existe escolha livre, informada e consciente. Existe um lado que manda e o outro que obedece. E isso é tão revoltante!
O governo tenta, há anos, reduzir as vergonhosas taxas de cesareanas no nosso país. Mas o processo é muito lento. O Ministério Público Federal em São Paulo entrou com ação civil pública para que a Justiça condene a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) a criar um regulamentação dos serviços obstétricos realizados por planos de saúde privados no Brasil.  Mas se as mulheres não estiverem conscientes da importância de se esperar o trabalho de parto, será mais uma ação vazia.
Então cabe a nós, mulheres nos empoderarmos e discutirmos informações baseadas em envidências científicas atualizadas com os profissionais que nos acompanham. Cabe a nós liderar a mudança no modelo de assistência obstétrica. Cabe a nós começar este movimento.

E você? Vai antecipar o nascimento do seu bebê? Vai cometer essa agressão com seu filho? Você pode escolher, ele ainda não!

Leia aqui a revisão sistemática da Cochrane:
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD004945.pub2/abstract
A versão integral pode ser consultada na BIREME:
http://cochrane.bvsalud.org/portal/php/index.php

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Gisele Leal
Escrito por

Gisele Leal

Obstetriz formada pela USP e acupunturista, com mais de 15 anos acompanhando mulheres na gestação, no parto e no pós-parto. Fundadora do Espaço Mulheres Empoderadas, em Campinas.

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