Muita gente me pergunta sobre a dor do parto. Não acredigtam quando eu digo que A-D-O-R-E-I o parto e que sinto saudades daquele momento!
Fazem aquela cara de “óóóóóó!!” e logo tascam: “Nossa que coragem! Mas não doeu??”
Claro que doeu! E doeu muito! Quarenta e uma horas de bolsa rota me proporcionaram o tal “parto seco” que todos dizem doer muito mais. Não sei se doeu mais ou menos, sei que doeu. Não me lembrava de quanto tinha doído até que fui reler meu relato de parto.
Mas eu digo mais: Está doendo muito mais o torcicolo que estou agora, me impossibilitando de me mexer do que a dor do parto….
Será o psciológico? Talvez!
A dor do parto: era a dor que eu queria sentir!!
O torcicolo: é a dor que eu não quero sentir. Não me preparei. Me pegou de surpresa!
A dor do parto era pra mim um atestado de perfeição do meu corpo. Meu corpo que por tantos anos maltratei, tomando remédios para emagrecer. O corpo que por tantos anos eu julguei imperfeito e incapaz. A dor do parto, era pra mim a simbologia do poder, de que meu corpo estava funcionando. Era o sinal de que minha filha estava chegando, com a minha participação e a dela. Nosso trabalho em equipe. Eu quiz tanto sentir aquela dor! Me preparei para aquilo! Quando a dor chegou eu dei as boas vindas à ela. A abracei, a senti em toda sua extensão e profundidade! Me entreguei…
A dor patológica, essa que sentimos quando algo não está funcionando adequadamente, é uma dor chata, limitante e irritante. Por vezes, desesperadora. É a dor que não queremos sentir, para a qual não estamos preparados. Essa dor do torcicolo, a dor de um dedo inflamado, uma dor de cabeça insistente, uma cólica renal. É o sinal que nosso corpo dá, de que algo está errado. Muitas vezes é um pedido de socorro: “ei, você aí! Pega leve comigo! Estou te avisando…Vou pifar!”.
Então a dor é psicológica?
Eu não acho que a dor seja psicologica. Até porque, antes do parto eu dizia pro meu marido: “Vou parir feito uma oriental. Em silêncio. Estou tão preparada para o parto que não vou sentir dor!”
E mesmo com toda preparação, querendo muito aquilo tudo, eu senti muita dor.
Não pari feito uma oriental, mas pari feito uma italiana louca, que rugiu e gritou, exorcizando todos os fantasmas das cesáreas anteriores, todos os fantasmas colocados pelos obstetras tradicionais que juravam que eu não teria minha filha naturalmente, e que me sentenciaram com uma terceira cesárea. Todos os fantasmas patológicos: a obesidade, a diabetes gestacional, a ruputra uterina, a não-dilatação, o não-trabalho-de-parto. Todos os fantasmas!
Então doeu. Doeu, porque eu precisava me libertar de cada uma dessas amarras para trazer minha filha ao mundo. Doeu porque eu precisava gritar, para todos aqueles que me sentenciaram incapaz: “EU SOU CAPAZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”
E saí desse parto vitoriosa. Como mulher, como cidadã, como mãe. Porque fiz valer o meu direito e o meu desejo.
E como toda vitória, ficou um gostinho de “quero mais”.
Então quando alguém me pergunta quantos filhos eu tenho, respondo de bate e pronto: “por enquanto tenho 3!”, o que imediatamente traz aquela cara de “óóóóóó!!” e logo tascam: “Nossa, que coragem! Não dá trabalho?”.
E eu digo: “tudo na vida dá trabalho. Trabalhar dá trabalho, cuidar da casa dá trabalho. Mas o trabalho e a casa não te olham no fundo do olho e sorriem, ou dizem: te amo mamãe”.
Mas isto é assunto para outro post!
😉


